SITUANDO O PÓS-MODERNISMO

NA PERSPECTIVA DO DESENVOLVIMENTO MORAL-COGNITIVO

          

                                                Stephen Chilton Footnote


Resumo

                   A crítica dos pós-modernos aos sistemas normativos é perspicaz, mas vulnerável a auto-negação reflexiva e decorrente impotência política. Este ensaio busca o simultâneo resgate e reconhecimento do pós-modernismo, situando-o como participante de uma estrutura dialética – a “ciência reconstrutiva” de Habermas – que inclui tanto a construção como a descontrução. A seqüência de estágios da argumentação moral proposta por Kohlberg é utilizada para organizar esses diversos posicionamentos teóricos.

                                                                    ***

                   Este ensaio apresenta um enquadramento teórico para situar o pós-modernismo. Footnote O marco enfatiza certas características lógicas do pós-modernismo e de várias outras posições normativas, de modo a reconhecer a força do pós-modernismo e esclarecer a maneira em que a “ciência reconstrutiva” de Habermas encontra no pós-modernismo a sua contribuição positiva, cuja ausência é muitas vezes criticada. Longe de enfocar as dificuldades do pós-modernismo para desconsiderá-lo -- tática que é usada ideologicamente pelas estruturas de poder estabelecidas para devolver a crítica dos pós-modernos -- desejo esclarecer aqui como a ciência reconstrutiva preserva a força da crítica pós-moderna, enquanto presta-lhe apoio contra a acusação de relativismo absoluto e conseqüente auto-negação.

                  Essa perspectiva básica é esquematizada na Tabela que segue. A sociedade pré-moderna se caracteriza, em termos do desenvolvimento moral, por sua organização em relações face a face de pequenas comunidades. Os conflitos sociais são resolvidos através de acomodações mútuas entre todas as partes. A comunidade é pequena o suficiente (e organizada de modo simples o bastante) para que as relações entre as pessoas sejam basicamente face a face, de modo a saberem quais são, e com quem se fazem os seus acordos. No Estágio 3, em que ocorre a “Regra de Ouro de primeira ordem”, tais acordos são alcançados mutuamente, ao afirmar uma relação de cuidado mútuo. Footnote

                                                    

 

 

 

 

 

Estágio Moral

                                  

           Posições assertivas/construtivas (negrito)

           Posições críticas/descontrutivas (itálico)

 

Pré-modernos

3

 

Significado normativo surge das relações face a face

3 1/2

Negociações face a face tornam-se incapazes de regulamentar sociedades extensas, diversificadas, complexas e interconectadas

 

 

 

 

 

 

 

 

Modernos &

 

Pós-modernos

 

4

 

Significado normativo já dado, sobreposto a relações face a face específicas, deve ser sustentado. Absolutismo político e religioso; conservadorismo clássico. Fascismo, Nazismo.

 

4 1/2

 

O “já dado” das normas do Estágio 4 torna-as culturalmente arbitrárias, revelando nesse ponto que a escolha existente reflete o poder social. Relativismo cultural, libertarianismo, Hobbes [sic]

 

5

Teorias de significado normativo com pelo menos igualdade formal de produção de sentido. Liberalismo clássico; Kant; conservadorismo Burkeano [sic]

 

5 1/2

Toda teoria de significado normativo recai no “trilema de Münchhausen”, e por serem arbitrárias novamente refletem o poder social (como no Estágio 4½). Teorias do pós-modernismo, construcionismo social/ interacisnismo simbólico; Foucault, Derrida, Benhabib, Fraser.

 

6

Dualidade de teorias normativas e crítica: argumentação dialética/ ciência reconstrutiva. Tanto o significado normativo como as críticas do mesmo são ainda necessários; descoberta pela inescapabilidade (= universalidade na prática), de modo que toda teoria corrente de significado normativo pode ser suplantada pela evasão de qualquer um, quando tal evasão necessitará a reconstrução da teoria para levá-la em consideração. Ética argumentativa; Habermas.

 

 

Footnote                   A sociedade pré-moderna torna-se moderna quando a interação social já não pode ser regulamentada pelas relações face a face. Historicamente, isso acontece devido ao crescimento demográfico, processos produtivos mais complexos e conexões comerciais mais amplas, e a mudanças tecnológicas mais rápidas. O crescimento demográfico tornou difíceis ou impossíveis as relações face a face. E o ritmo lento das acomodações face a face era vagaroso demais para adaptar-se à maior velocidade das mudanças (novos mercados, rotas de comércio, novas tecnologias e conhecimentos). Não importava que a sociedade fosse organizada nos Estágios 1, 2 ou 3 de argumentação moral, já que todos eram fundados em relações face a face.

                   Tais problemas puderam ser enfrentados no Estágio 4, quando a lealdade pessoal se organizou sob um sistema moral superposto e definido centralmente, com as relações face a face subordinadas a essa lealdade. Neste contexto a sociedade moderna aparece com o advento do verdadeiro sujeito político, o cidadão, cuja responsabilidade não é apenas obedecer a lei, mas também sustentá-la. As teorias políticas da modernidade diferem amplamente umas das outras, mas são todas mantidas pela idéia do direito e da cidadania.

                   O restante de nossa história se organiza pelo intercâmbio entre uma busca por fundamentação normativa e uma crítica de tal fundamentação. As posições se alternam entre posicionamentos morais positivos (4, 5, mostrados em negrito), e subversões críticas desses posicionamentos (4 ½, 5 ½, mostrados em itálico). Footnote Notemos finalmente que cada estágio tem várias teorias que com ele se associam, indicando uma semelhança cognitiva-estrutural entre as variações específicas de seus posicionamentos teóricos.

                   O pós-modernismo aparece no Estágio 5 ½ . Esse posicionamento indica asua característica essencial de relativização das teorias do Estágio 5, ao subverter a sua pretensão de objetividade. Por exemplo, o argumento básico de Foucault é que as instituições e categorias lógicas da sociedade liberal não são neutras nem inevitáveis. Ao contrário, são sempre escolhas contigentes realizadas para favorecer um agrupamento social particular (classe, ocupação; etc). Footnote As críticas pós-modernas específicas diferem em como identificam e subvertem tais pretensões a objetividade, mas partilham da mesma lógica básica.

                    A crítica pós-moderna demonstra a força do chamado “trilema de Münchhausen”, a saber que qualquer tentativa de fundamentar uma teoria moral na lógica propositiva resulta sempre em uma de três situações insatisfatórias: ou a cadeia de implicações justificatórias é circular, ou redunda em uma regressão ao infinito, ou ainda interrompe em certo ponto considerado como verdade auto-evidente (Habermas 1983/1990: 7,79). Esta última alternativa é objeto das críticas dos pós-modernos. Estas críticas mostram realmente que os posicionamentos “auto-evidentes” são de fato abertos à crítica, desalojando assim o teórico do Estágio 5 de sua posição estabelecida.

                    Contudo, as críticas não se dirigem apenas à subversão de posicionamentos específicos; pois afinal crítica e reformulação são parte familiar da normalidade do debate moral. Ao contrário, as críticas pós-modernas buscam estabelecer por antecipação que todos os posicionamentos são vulneráveis. Por exemplo, a arqueologia do saber de Foucault mostra que é possível descobrir uma corrupção originária por considerações de poder, no exame das origens de qualquer prática ou categoria social. As críticas específicas de Foucault podem dirigir-se a categorias e práticas específicas – a clínica, a prisão, sexualidade, etc --, mas o seu método pode ser aplicado universalmente. De modo semelhante, as críticas específicas de Derrida ilustram o seu método que é aplicável mais geralmente: mostrando a ênfase e privilégio de certas formas de saber e um obscurecimento (encoberto) de outras alternativas. O reconhecimento e a reversão dessas iluminações e obscurecimentos revela alternativas suprimidas cuja negligência não se pode facilmente justificar. Os campos intimamente semelhantes das teorias socio-construtivistas e do interacionismo simbólico proporcionam críticas similares, na sua demonstração continuada de como as práticas sociais se constróem a partir das escolhas das pessoas, e podem ser portanto concebidas outras construções alternativas. Tal como as críticas pós-modernas, atacam não apenas posições específicas mas o sentido conjunto de naturalidade, sobre o qual se assentam esses posicionamentos. Pois é possível disfarçar (mas não superar) a terceira “ponta” do “trilema de Münchhausen”, ao aparentar inatacável sua fundamentação final; mas o pós-modernismo remove sistematicamente esses disfarces. Argumentos semelhantes se aplicam ao ataque de Benhabib (1986) ao conjunto da abordagem das teorias fundadas na justiça (argumentando que o foco no “Outro Generalizado” exclui qualquer consideração do “Outro Concreto”), e à longa lista de Fraser (1986:425) sobre os meios que mantém o domínio de certos discursos normativos.

                      Como acontece também com os outros estágios relativizadores, a posição pós-moderna pode ser criticada, por seu relativismo crítico ignorar que o mundo segue requerendo que coordinemos nossas ações com os demais, e que as normas de coordeção exigem uma justificação que o pós-modernismo é incapaz de proporcionar. Esta crítica prática corresponde à crítica teórica acerca da auto-contradição – o argumento de que a crítica pós-moderna totalizante subverte sua própria capacidade de requerer que as pessoas prestem qualquer atenção às mesmas demandas que apresenta.

                       Tal objeção é superada no Estágio 6. Os detalhes deste posicionamento são demasiado complexos para uma plena exposição neste espaço, mas os seguintes pontos esboçam essa posição. Footnote O estágio 6 coloca as teorias normativas e suas críticas (pós-modernas) em relação dialética, sem reconhecer primazia nem desconhecer a nenhum dos lados, estabelecendo concessões entre ambos. A teoria normativa deve abandonar a expectativa de afirmar qualquer verdade absoluta: as posições normativas podem apenas sustentar-se como contingentes. Mesmo o acordo entre todos é contingente, já que essa unanimidade pode romper-se pela evasão de qualquer um, seja agora ou posteriormente. E em especial, as objeções pós-modernas devem ser consideradas. Contudo, o reconhecimento dessa contingência não remove a natureza vinculante de qualquer das posições que estejam apresentadas.

                        O pós-modernismo, por sua vez, desiste do direito de denunciar antecipadamente todas as posições. O seu método pode seguir identificando os problemas das posições normativas existentes, mas deve fazê-lo na prática. Tais críticas são aceitas e mesmo bem recebidas, mas apenas sob a forma de correções concretas post facto. Mesmo se antecipamos uma série infinita dessas correções, a posição normativa contingente retém sua força vinculante.

                       Esta dialética abstrata estrutura a ética argumentativa, em que Habermas deriva seu posicionamento moral dos pressupostos da argumentação. No momento colocamos entre parênteses a questão de como Habermas chega a esses pressupostos. Habermos os deriva da posição moral de que as normas são apenas justificadas quando são (ou poderiam ser) acordadas na prática por todos. Se ele identifica corretamente os pressupostos e suas deduções dos mesmos são corretas, consegue então “acuar” o cético moral a uma aceitação de seu posicionamento, porque qualquer tentativa de argumentar contrariamente a essa posição enredaria o cético numa “contradição performativa”: argumentar coloca em jogo os próprios pressupostos dos quais Habermas deriva suas conclusões. Portanto, neste sentido a justificação de Hbermas funda-se na inescapabilidade da ética argumentativa, e não na sua auto-evidência.

                      Mas como pode Habermas provar que a sua compreensão dos pressupostos argumentativos é correta? Aqui ele se volta ao que denomina “ciência reconstrutiva”, uma lógica dialética em que a correção dos pressupostos argumentativos deve provar-se na prática. Se o cético for capaz de formular uma objeção ao argumento ético sem enredar-se numa contradição performativa, então os pressupostos devem ser revistos para levar em conta essa objeção, e o argumento ético decorrente deve ser alterado de modo correspondente. A argumentação ética é assim reconhecida como contigente, já que nunca podemos provar a exatidão dos pressupostos argumentativos – embora a menos, e até que alguém consiga contorná-los, a utilização do método da contradição performativa permita demonstrar, na prática e para todos, Footnote a sua correção e a do sistema moral a que apela.

  

 

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